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domingo, 17 de abril de 2011

CECÍLIA MEIRELES - CÂNTICOS: OFERENDA


O eu lírico do "Cântico IV", da obra póstuma Cânticos: uma oferenda (1982),
de Cecília Meireles, aconselha: "Não queiras ser tu.". Depois acrescenta: "Troca-te
pelo Desconhecido.". E este Desconhecido é definido, dentre outras perguntas,
por esta: "Não vês, então, que ele não tem fim?". A pergunta em questão
é uma verdadeira afirmação. O Desconhecido não tem fim; é infinito.

O livro é todo espiritualidade. Os versos escolhidos ilustram bem esse fato.
Propõem que nos depojemos de nosso ego limitado para nos conhecermos,
pois somos muito mais do que pensamos: "Não vês, então, que ele é maior?".
Seguindo uma linha espiritual de raciocínio, o eu lírico termina o "Cântico IV"
com esses dois últimos questionamentos: "Não vês que ele és tu mesmo? /
Tu que andas esquecido de ti?". Em outras palavras: ele, o Desconhecido,
é o próprio leitor que ainda não se descobriu, que, por acreditar ser apenas
 seu ego superficial, não se recorda que é todo um universo a ser descoberto
e já existente no seu eu mais profundo, o self, conforme a terminologia yunguiana.

É interresante observar também, nessas e em outras passagens,
a habilidade com que a autora trabalha os pronomes para conseguir especificar,
diferenciar e aproximar o ego e o self, este eu profundo e desconhecido.
Percebemos ainda que o eu lírico escreve sobre uma experiência espiritual
já vivenciada por ele: a liberdade do espírito, o que pode ser
confirmado nos seguintes versos da epígrafe da própria Cecília:
"O vento do meu espírito / soprou sobre a vida.".
Daí o tom de conselho autorizado que perpassa a obra:
"Faze silêncio no teu corpo. / E escuta-te /
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.".
("Cântico IX")

No conjunto, Cânticos: oferenda, de Cecília Meireles,
remete-nos ao Cântico dos cânticos e coloca-se abaixo desta obra.
Se a obra bíblica é um canto, acima dos demais, ao Espírito Santo de Deus,
o livro de poemas de Cecília é um canto espiritual dentre outros,
pois tem uma especificação: "Teu nome é liberdade.".
São, por assim dizer, cânticos de liberdade.
 Cânticos da  liberdade do espírito humano em Deus.

sábado, 16 de abril de 2011

PROPOSTA DE FRONTEIRAS LITERÁRIAS

A proposta deste blog é comentar obras de autores de diferentes línguas e culturas.
Os comentários são pontuais e têm como referência as minhas leituras e conversas
cotidianas, bem como os meus textos que serão reproduzidos neste espaço.

Ao escrever sobre a produção literária de diversos países em diferentes épocas,
observo os diálogos que as obras de poetas e escritores estabelecem entre si,
com as literaturas canônica e marginal, com as tradições clássica e moderna,
e com as linguagens de textos não literários e de outras artes.

Também procuro valorizar a diversidade dos gêneros literários, inclusive os híbridos,
a expressão das identidades sociais, étnicas, de gênero e de outras categorias,
a utilização de diferentes recursos formais e conteúdos temáticos, e
a convivência de várias áreas do conhecimento no texto literário.

Parafrasenado Manuel Bandeira,
dedico-me a todos os ritmos, sobretudo os inumeráveis.
Todavia, é importante informar que não pretendo,
com essa abrangência de possibilidades,
demonstrar uma erudição que não tenho,
nem fazer um estudo exaustivo de nenhuma delas.
Com a proposta de Fronteiras Literárias,
viso apenas a liberdade de passear pelos limites da literatura.
Venha fazer essa travessia comigo!